JOE: Quando uma peça transforma a identidade de um espaço
Um projeto de interiores não se constrói apenas através da soma das peças que o habitam. Existe uma relação mais subtil entre arquitetura, proporção, materiais e mobiliário, e é nessa relação que a curadoria assume um papel determinante.
Escolher uma peça para um espaço é, por isso, muito mais do que responder a uma necessidade funcional. É perceber o que aquela peça pode acrescentar ao ambiente, como se relaciona com o que já existe e de que forma pode contribuir para a identidade do projeto.
Há peças que se integram naturalmente num espaço. Outras têm uma presença tão forte que podem alterar por completo a sua leitura.
Uma poltrona escultórica, uma mesa de proporções inesperadas ou um objecto com uma linguagem particularmente expressiva podem funcionar como pontos de tensão, contraste ou surpresa.
Quando bem enquadradas, estas peças não competem com a arquitetura: ajudam a defini-la. É o caso da Joe, uma das peças mais reconhecíveis da Poltronova, desenhada pelo trio composto por De Pas, D’Urbino e Lomazzi, em 1970.
Inspirada numa luva de basebol de grandes dimensões, a poltrona JOE nasceu da admiração dos designers pela figura do lendário jogador americano Joe DiMaggio e transporta para o universo doméstico a linguagem irreverente da Pop Art.
A escala transforma o objeto original numa peça de mobiliário inesperada. A forma, quase hiper-realista, torna-se simultaneamente escultórica e acolhedora: uma peça concebida para sentar, mas também para provocar uma reação.
Num projeto, a presença de uma peça como a JOE não significa necessariamente criar um ambiente exuberante. Pelo contrário, o contraste pode ser mais eficaz quando existe contenção à sua volta.
Num interior de linhas depuradas, materiais naturais e uma paleta neutra, uma peça de caráter pode funcionar como elemento de surpresa. Noutro contexto, pode reforçar uma linguagem mais expressiva, dialogando com cor, arte ou outros elementos de forte presença visual.
É aqui que a curadoria deixa de ser uma questão de gosto pessoal e passa a ser uma ferramenta de projeto. Não se trata apenas de escolher uma peça que nos entusiasma, mas de compreender onde ela pode fazer sentido.